Vem Cá Que Eu Te Conto - Viagens, Roteiros e Transformação

A História da Tanaka no tratamento de beleza das mulheres em Myanmar. Como eu sai mais bonita por dentro e por fora!

 A História da Tanaka no tratamento de beleza das mulheres em Myanmar. Como eu sai mais bonita por dentro e por fora!

Fala viajantes! Blz? Viajar é se graduar na escola da vida! Nos faz uma pessoa melhor e enxergar coisas que realmente tem valor. E por falar em valor... tive experiências de triturar o coração por lá. Quer saber o que aconteceu nos bastidores do mochilão em Myanmar? Vem cá que eu te conto!

Myanmar,Bagan, inverno, dezembro de 2017.

Ahhh... Myanmar... confesso que não fazia idéia de que ele existia...

Meu planejamento seriam 5 dias por lá, coisa rápida. Enxuguei o roteiro ao máximo por não achar que teria muito a se ver... e confesso que o passeio de balão era o que me atraia pelo lugar.

Por ironia do destino, o país não me proporcionou a realização desse sonho mas me reservou um momento de tirar os pés do chão que eu nem imaginava!

Bom, a história hoje tem a ver com a Tanaka. Tanaka é o cosmético mais usado e mais antigo em Myanmar. Eles usam como protetor solar pitando e fazendo desenhos nos rostos. Ele é extraído de troncos e galhos de uma árvore! Tem cheirinho do nosso protetor solar, porém é amarelo. Quase todas usam isso em qualquer horário do dia. É característico deles. 

Se você começou a leitura só pela curiosidade das dicas de beleza, então lá vai! A Tanaka, além de um poderoso protetor solar também age como anti acne, anti envelhecimento, hidratante,antioxidante, antiseptico, refrescante cutãneo e reduz as manchas na pele. Percebeu como é poderoso né?! rs..

Tenho usado toda noite e te afirmo que é excelente!

Agora, se você quer saber como a Tanaka me deixou mais bonita por dentro, sugiro que continue a leitura.

Peguei um dia inteiro de chuva e aproveitei para tirar o dia para fazer nada além de ficar deitada com os pés pro ar...que delícia! kkk... Mynamar, foi a terceira parada de um mochilão de 9 países e após passar vários perrengues eu confesso que adorei o descanso e um day off foi mais que merecido!

A única coisa que me chamava para a rua era a fome. Eu estava tão cansada da correria do mochilão que não tive nem forças para levantar para o café da manhã aquele dia.

Vou levantar, comer em algum restaurante e voltar pra curtir essa cama de hostel nada luxuosa, mas que está perfeita! Pensei.

Pois bem, levantei, substitui o pijaminha pela primeira roupa que avistei no topo da mala (agora vocês vão entender o porque de estar largada na foto), varri meu olhar pelo chão procurando meu par de sandálias e fui saindo do quarto.

Chuviscava e parava. Eu sem guarda chuva tentava apertar o passo pra não chegar ensopada no restaurante que estava a quase 1 km dali! Lá não tem ônibus e se quiser realmente economizar ou vai andando ou aluga uma motocicleta.

Fui seguindo o caminho e esse me fez passar por ruas residencias. Aquelas casinhas simples, muito diferentes das nossas construções. Muito mesmo.

Eu, acenava com um sorriso largo sempre que conseguia avistar alguém. Eles, sorriam de volta com um olhar tipo... o que esta guria ta fazendo andando por essas bandas? rs..

Como o caminho era longo, fui parando em qualquer lugar que tivesse alguém ou alguma coisa pra ir distraindo.

Até que cheguei numa espécie de mercearia. Ela falava um inglês bem restrito. Aquele básico para vender e ganhar seu dinheiro.

Perguntei o preço de alguns itens mas não comprei nada. 

Bem, o legal de comprar assim direto com os nativos é porque  de fato, você ajuda aquele vilarejo diretamente. O dinheiro do turismo vai pra quem precisa.

Bem, do lado dessa "vendinha", uns 10 passos a frente, na mesma calçada, tinha uma espécie de casa/mercearia também. É comum a gente vê isso por lá. As pessoas moram nos comércios.

Pois bem, e foi ali que meu coração de viajante bateu mais forte.

Vi que tinha Tanaka pra vender e fui logo perguntando o preço pra pechinchar! Vai que fique super barato? pensei. Elas vendem uns tabletes pequenos e daria pra levar na bagagem como souvenir do lugar! Conclui.

- Ei moça, tudo bem? Comecei a conversa.

- Oi! Responde ela, vindo ligeiramente em minha direção meio atrapalhada.

- Você vende Tanaka? Pergunto.

- Sim. Isso é Tanaka! Ela responde.

- Quanto custa? Eu pergunto novamente pensando, será que ela não sabe inglês? Eu já sei que isso é tanaka!

- Sim. É Tanaka! Repete ela sorrindo e procurando água para fazer a mistura e me mostrar como elas extraem o líquido do toco de árvore.

Eu já sei como faz, digo já agoniada pois ela parecia não entender nada que eu perguntava em inglês e eu não iria comprar. Estava apenas querendo saber o preço.

Ela parece não me ouvir ou não me entender. Procura uma caneca, põe 3 dedos de água e começa a raspar o toco numa espécie de bandeja de cimento pra começar a liberar o líquido.

Eu já tinha visto como se fazia em uma das paradas do ônibus pela madrugada. Então não era novidade. Mas ela insistiu em me mostrar toda orgulhosa.

Eu nesse momento estava com fome e com pressa, e só queria saber o preço!

Então, ela vira, passa delicadamente o dedo no líquido e como nossa professora de jardim de infância, pinta meu rosto. Ela estava tão orgulhosa em fazer aquilo que seus pequeninos olhos brilhavam.

Enquanto ela pintava, subir aquele cheiro gostoso de protetor solar, que eu bem conheço, por ser carioca. Por um instante lembrei das prais e do mar enquanto estava de olhos fechados me sentindo com 5 anos de idade.

Engraçado que por mais que a gente se afaste de casa, por mais que a gente tente esquecer de onde veio, somos incapazes de conseguir isso. As lembranças não vão na mala, mas no coração.

Ela terminou de espalhar a tanaka no meu rosto e repetia, tanaka!

Pensei, pobre senhora, como ela vai vender se não está entendendo nada em inglês?

Então, segurei o tablete de tanaka e fui falando de todos os jeitos possíveis e imagináveis.

Quanto custa? Qual o preço disso? Eu quero comprar! Você vende pra mim? Perguntei na esperança de que alguma dessas expressões ela iria entender.

Daí ela vira pra mim e diz: Não! Você não está entendendo! É presente pra você! e coloca o tablete na palma da minha mão e a fecha.

Sabe quando uma palavra te desmonta por dentro? Foi isso que aconteceu.

As condições dela eram muito precárias e eu tenho consciência de que o dinheiro vindo do turismo é muito bem vindo pra eles.

Eu agradeci com vergonha de aceitar e peguei uma nota para "pagar" o presente.

Tentei em vão. Ela não quis aceitar.

Repetia. Não! É meu presente para você!

Aí vem a vida e te dá uma lição daquelas que você nunca imaginou.

Lição n 1: Mocinha, aprenda , dinheiro não é a moeda de troca mais importante do mundo! 

Me perdoe, Senhora, mas minha educação capitalista foi muito forte. É difícil entender isso ainda. Eu juro que estou aprendendo e tentando melhorar.

Lição n 2: Aprenda a receber! Quantos de nós tem dificuldade em receber e nem percebemos? Nossa, esse é outro ponto que preciso trabalhar muito em mim. E agora não tem nada a ver com minha cultura. Sou eu mesma. Quantos de nós estamos sempre dispostos a nos doar para os outros, mas quando precisamos, nos isolamos no nosso mundinho?! Receber não é sinõnimo de fraqueza e fragilidade. Mas e se você estiver assim, também não há problema algum em receber um colo ou uma aajuda de um amigo.

Liçao n 3: Diferença entre preço e valor. Enquanto eu estava preocupada com o preço ela queria me mostrar o que tem valor. O valor da sua cultura, dos seus costumes passados de geração em geração. O valor de um sorriso e de se tornar inesquecível pra alguém. Ela conseguiu fazer o que dinheiro nenhum faz. Se tornar eterna pra mim, Todas as vezes que eu lembrar daquele país, lembrarei dela. Todas as noites quando eu uso a tanaka no meu rosto, lembro dela e peço nas minhas preces que ela esteja bem.

Isso me fez questionar no que eu dou importância. Quantos momentos eu posso tornar únicos com um simples gesto de carinho.

Enquanto ela fazia aquela mistura, ela misturava duas culturas. Ela deixou o país  dela pintado na tela da minha vida. Pintado a dedo, com aqueles olhos puxadinhos, aquele jeito tímido.

Eu, gostaria muito que ela lembrasse e perdoasse essa turista " burra" que achou que o problema ali era a falta de um bom inglês, mas na verdade, não era falta de nada, era sobra. Sobra de amor.

Daí me restou depois disso, pedir um abraço e uma foto pra eu guardar de recordação.

Imagem em Coração de Viajante- A História da Tanaka no tratamento de beleza das mulheres em Myanmar. Como eu sai mais bonita por dentro e por fora!          Imagem em Coração de Viajante- A História da Tanaka no tratamento de beleza das mulheres em Myanmar. Como eu sai mais bonita por dentro e por fora!

Torço pra que ela lembre de uma brasileira espalhafatosa, que fala alto, de sorriso fácil e olhos grandes, diferente do dela. Que algo em mim tenha ajudado ela a ser melhor assim como ela me ajudou.

Pra completar, ela ainda era dona do abraço mais acolhedor que já recebi na vida.  Apelidei ela chamando de minha mãe Myanmarense.

Moral da história: Não perca a chance de se tornar inesquecível na vida de alguém!

Grande abraço,

Aline Monteiro

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Postado por: Aline Monteiro

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Extrovertida, brincalhona, aventureira, mãe, mulher, resolvida e também adoro mochilar um pouquinho mundo a fora!

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